.suspiro.
.eu.
.do porquê te amo.
.
Há segredos que não podem ser descobertos. Além disso, não posso revelá-los assim.
Eles precisam ser guardados junto aos brinquedos que escondi no fundo do armário para não serem doados, atrás da pilha de traumas da infância que já não me lembro mais, embaixo daqueles amores que nunca saíram de mim.
Existem algumas coisas que se eu contar para alguém deixam de ser minhas, deixam de existir, deixam de me fazer quem sou. Por isso deixo-os seguros lá, bem lá no fundinho de mim.
Levo comigo uma mochila desses segredos que me doem os joelhos como a mala para um final de semana de praia: há de se levar um casaquinho pois pode esfriar, um biquini para o caso do sol aparecer, uma blusa bonita se pintar uma festa, um tênis para caminhar no pôr do sol e tantas outras necessidades que nunca saberemos mas que sempre voltam de repente para nossa vida.
Veja aquela senhora de verde musgo, por exemplo, que carrega sua bolsa como se estivessem as jóias da família real no compartimento interno e caminha mancando uma das pernas, guarda um segredo que nem eu, nem tu nem sua filha que lhe sorri amigavelmente toda noite sabe. E este senhor que combina a risca do terno com suas meias e não come mais geléia de uva desde que ficou viúvo da terceira esposa, guarda seu grande amor no bolsinho secreto da carteira, junto com um Kaeru, que nunca ninguém descobrirá.
Tua cunhada, teu primo, tua angelical bisavó que não acerta mais a deliciosa receita de bolo de aveia. Teu melhor amigo, tua vizinha, tua doce namorada que te resume todos os dias todo o seu dia. Tu, inclusive e - talvez - principalmente tu, cuida de alguns pensamentos, acontecimentos, acasos ou amores que nunca irão sentir a brisa de uma manhã de verão. Cuidarás deles como cuidas da tua pele, dos teus livros ou do teu pai doente, com delicadeza, cautela e muito medo de perdê-los.
Não posso te pedir que me dê o prazer - ou a dor - de sabê-los.
Não posso te dar a angústia - ou a delícia - de contá-los.
E arrisco a dizer que este possa ser o maior motivo que me faz te amar tanto, pois há coisas que, se me contares, deixarão de ser tuas, deixarão de existir e tu, meu amor, deixarás de ser aquele que me apaixonou.
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.duas.
.nada muda este sentimento.
Nem o sol nem a chuva e, mesmo envergonhada, admito que nem o time. Minhas mais remotas lembranças se perdem nos três Gigantes daquelas tardes de infância: o senhor negro com gigantes mãos, cujas palmas ecoavam como trovões na arquibancada; a gigante construção à beira rio, que identificava e segurava aquele mar vermelho de alegrias e prantos; e o mais gigantesco homem da minha vida, que me ensinou o amor colorado.
Alto, magro e negro, aquele desconhecido torcedor possuía cabelos grisalhos e longuíssimos dedos. Suas mãos me lembravam raquetes de tênis. Seu sorriso era proporcional a elas, assim como sua tristeza. Ele sempre ficava no mesmo lugar, encostado na parede do último degrau da arquibancada inferior – portão 02. Em determinados momentos, e não saberei precisar se por minhas piruetas ou por algum movimento da bola longínqua e branca no meio do campo, ele esticava suas mãos ao extremo e batia palmas. Eram trovoadas que vibravam o estádio e meu coração.
Este som só perdia em grandeza quando o Gigante urrava e gritava e cantava e mostrava o poder de suas milhares de vozes juntas. Éramos poucas dúzias por vezes, ou centenas delas. Meu grito se unia aos outros, indiferente ao motivo, independente da situação. Aos cinco anos, não há criança que precise de razões para berrar, pular e acompanhar seu ídolo na alegria e na dor.
Aos cinco anos, minha felicidade era saber que nosso time faria, com certeza, nascer rugas e, talvez, roubar sorrisos do maior homem do mundo: nós somos os de vermelhos, né, pai? O clichê da vida mantém-se aqui, como na maioria das histórias de amor. Ao me levar pela mão ao estádio e me soltar logo depois de adentrarmos ao caldeirão, meu pai queria me apaixonar.
Não ouso dizer que eu sabia o que acontecia nos gramados. Não entendia o objetivo dos chutes, da bola ou do homem do apito. Meu entrosamento era com os degraus, com a camisa que eu inventava bandeira, com as descobertas mágicas naquele concreto. Naquela época eu era o sentimento que compartilhava com meu pai, era a onda vermelha que hipnotizava e com certeza era ali a solidificação da minha personalidade.
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Republicado do dia 17/04/10